Na praça Benedito Calixto, em Pinheiros, existe um portal que leva diretamente para o passado. Todo sábado, das 9h às 19h, é possível encontrar discos, chapéus antigos, móveis da década de 1970, óculos do avô, roupas, e prataria de 1920 em um só espaço: a feira de antiguidades da Benedito Calixto, que existe desde 1987 e já se tornou um ponto turístico da capital paulista, atraindo aproximadamente 7.000 pessoas em cada edição.
Situada no coração do bairro, entre as ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde, a praça abriga 350 expositores, e ainda atraiu restaurantes, bares, brechós e galpões multimarcas para a redondeza. Dividida em ruas espalhadas pelos 4.500 m2 de área da praça, a ex
Dividida em ruas espalhadas pelos 4.500 m2 de área da praça, a feira atrai cerca de 7.000 pessoas todo sábado.posição tem os mais inusitados objetos à venda, e visitantes bastante incomuns também, como o papagaio Chiquito, personagem principal do realejo que fica na praça, e que tira a sorte para quem lhe entregar R$ 2. Os papeizinhos, separados entre dizeres para solteiras e casadas, ganham “beijos” do papagaio e predizem até mesmo os números a serem jogados na loteria. A brincadeira, típica de décadas passadas, dá boas vindas aos visitantes da feira e condiz com as peças de antiguidade disponíveis no local.
É na Benedito Calixto que os paulistas podem encontrar a mais nova paixão dos ouvidos retrôs: os discos de vinil. Em algumas bancas, as peças são vendidas por pouco mais de R$ 1, e a sensação saudosista é difícil de conter em meio aos bolachões de Roberto Carlos, The Beatles e Gal Costa. Sérgio Vieira, que há 22 participa da feira, explica que sempre gostou de trabalhar com discos, e se tornou expositor quando foi morar na região. “Cheguei aqui e vi a feira, que na época era bem menor. Falei na Associação (dos Amigos da Praça Benedito Calixto) e no sábado seguinte já estava trabalhando aqui”, explica, apoiado sobre discos de jazz antigos. No início, eram poucos vinis, mas logo as pessoas começaram a frequentar a feira para trocar ou vender peças novas.
Durante esses 22 anos de trabalho, Sérgio conta que aprendeu a diferenciar os discos raros. “Já vendi disco que valia R$ 50 por R$ 1. Mas com o tempo a gente aprende quais são raros de verdade. Não tem outro jeito: só conhecendo mesmo”, afirma.
Os clientes da barraca de discos não têm idade muito definida: jovens e adultos compram quase os mesmos vinis, e a vitrola, apesar de ter perdido espaço para o CD e o MP3, ainda pode ser encontrada na feira. Existem peças originais das décadas de 1960 e 1970, coloridas e em formato de maleta, perfeitas para os novos adeptos dos bolachões que já nasceram na época do digital. “Não existe idade. O que faz o disco é a música”, explica Sérgio. Aficionado por Johnny Rivers, o dono da Sérgio Discos ainda aponta sua atual raridade: um vinil de Andy Wahrol, com o preço mais salgado da barraca: R$ 70.
Luciana Bernardi vende óculos retrô há 15 anos na Benedito Calixto. Ela tem peças que chegam a valer R$ 1.500.
Para acompanhar os bolachões, é possível encontrar barracas na feira que vendem vitrolas e telefones antigos, além de sofá e poltronas parecidos com aqueles que existiam na casa da avó ou da tia. Os itens são perfeitos para um ambiente retrô, e acabam sendo procurados por donos de bares e restaurantes que querem adotar uma decoração temática. Ainda é possível comprar peças de vidro e cristal para enfeitar a casa, e louça e prataria originais das décadas de 1920 e 1930. Mas para quem gosta de usar peças vintage, o ideal é procurar por Luciana Bernardi na barraca chamada Alaíde Aguiar Bernardi, nome da sua mãe, que começou a atividade. A barraca é dedicada aos óculos antigos, originais e de marca, tão bem cuidados que parecem novos.
A família entrou no negócio de antiguidades em Sorocaba, onde abriram um antiquário. Foi lá que os clientes comentaram da feira da Benedito Calixto, e então Luciana conseguiu, há 15 anos, um espaço para expor suas peças. “No começo, tínhamos alguns óculos e várias outras peças de louça. Mas há 8 anos vimos que eles estavam dando mais dinheiro, e decidimos vender só óculos”, conta, mostrando a vasta coleção sobre as mesinhas. Entre as peças, que variam de R$ 190 a R$ 590, há uma raridade que fica protegida na vitrine de acrílico: o modelo aviador da Cartier, em ouro branco. O preço? R$ 1.500, o mais caro do conjunto.
Em outra barraca, é possível encontrar armações de óculos em promoção, por R$ 50. E também relógios antigos, como aqueles dourados com pulseira elástica. As mulheres ainda podem aproveitar para arrematar peças de bijuteria diferentes, bolsas de
Reginaldo Moraes aprendeu a arte da marchetaria sozinho e há três anos expõe seus produtos na praça. artesanato e roupas nas barracas de brechó. Flávia, uma das expositoras, que participa da feira há 10 anos, vende peças novas e antigas, entre objetos de decoração, anéis, colares e garrafas de whisky. Em meio à coleção exposta, é possível achar bolsas produzidas pelo artesão Gatti, que trabalha com couro há quase 50 anos. As peças (uma vermelha e duas em couro cru) são únicas, segundo o autor dos modelos. Além de trabalhar na Prefeitura de São Paulo e já ter clientes fiéis, o artesão também gosta de disponibilizar algumas peças na feira. “Mas as pessoas estão comprando menos, por causa da inflação”, reclama, e depois brinca que suas bolsas são de estilo “hippie chic”.
Além das peças antigas, como os brinquedos, roupas, cristais, livros e moedas – colecionadores se encontram por lá para renovar seus acervos -, a feira ainda abriga artesãos, como Reginaldo Moraes, que aprendeu a arte da marchetaria sozinho, e há 3 anos expõe caixas de madeira na Benedito Calixto. As peças, que variam de tamanho, estilo e preço, são produzidas pelo próprio Reginaldo, que também aceita encomendas.
Além dele, artesãos dedicados a fazer bijuterias e roupas também participam da feira, que é organizada pela Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto. A entidade separa os espaços de exposição (que normalmente têm 4m² e custam R$ 80/mês) e d
O ambiente retrô predomina em quase todas as barracas da Benedito Calixto, como a dos telefones antigos.efine quem pode participar do evento. De acordo com Leonardo Sanches, contador da Associação, as inscrições são abertas em março e os interessados devem vender antiguidades, artesanato, artes plásticas ou alimentação.
Para embalar os visitantes, a entidade ainda tem parceria com a organização Chorinho na Praça, grupo de músicos que se apresenta no local todo sábado, das 14h às 19h. Mas não é só o chorinho que anima a feira: na sede da associação, uma roda de capoeira estava sendo organizada no último sábado (17). Além disso, os bares no entorno contam com música ao vivo, e os clientes se acomodam na calçada para tomar uma cerveja e esperar na fila para experimentar o famoso cardápio do Consulado Mineiro. Filas de camelôs com bijuterias, artigos de couro e artesanato se espalham pelas calçadas da Teodoro Sampaio, e se confudem com o ambiente da feira, que parece não acabar até você entrar de volta no carro.
Serviço:
Feira de Antiguidades Benedito Calixto
Praça Benedito Calixto, s/nº - Pinheiros
Entrada gratuita. Estacionamentos na região, cerca de R$ 7/hora.
POR THAÍS FREIRE